quarta-feira, 9 de agosto de 2017


Estudando as Seitas Neopentencostais - A Congregação Cristã no Brasil


O operário italiano Luigi Francescon teve uma experiência semelhante aos suecos Daniel e Gunnar. O valdense Luigi migrou para Chicago e lá se tomou membro da Igreja Presbiteriana Italiana. Mas assistiu a reuniões na igreja de Durham e lá recebeu o dom de falar em línguas em 25 de agosto de 1907, como afirma. Motivado por uma visão semelhante à de Daniel e Gunnar, Luigi foi a Buenos Aires, Santo Antônio da Platina (PR) e finalmente ao Brás, bairro de migrantes italianos na cidade de São Paulo, numa época profundamente marcada por movimentos operários e greves em busca de melhores condições de trabalho. Luigi pregou em 1909 numa igreja presbiteriana, e a sua pregação carismática, a exemplo de Daniel e Gunnar, causou profundas divergências, que desembocaram na formação da Congregação Cristã em 1910.

Luigi não era missionário nem era sustentado por uma missão estrangeira. Por isso Antônio Gouvêa Mendonça ressalta que essa Igreja pode ser considerada a primeira Igreja Pentecostal brasileira. Além disso, a Congregação só manteve os cultos em língua italiana durante duas décadas, passando então definitivamente para a língua nacional. E devo ressaltar ainda que na década de 1950 entraram muitos nordestinos na Igreja, pois estes iriam ocupar o lugar dos italianos e de seus descendentes no Brás, acontecendo uma verdadeira explosão numérica de membros da Congregação. Esta foi-se difundindo para os estados brasileiros, especialmente São Paulo e Paraná, e para outros países. A Congregação nega-se a registrar o número de seus membros por causa da proibição veterotestamentária de contar o povo de Deus. Calcula-se que ela tenha mais de um milhão de membros.



Luigi era proveniente da Igreja Presbiteriana, e por isso é fácil entender que a Congregação Cristã crê na doutrina da predestinação. Essa doutrina serve para a Igreja explicar por que alguns membros batizados na Congregação saem da mesma, pois afirma que só os “ eleitos” , os “ verdadeiramente chamados” permanecem na Igreja. Por causa da doutrina da predestinação, a Congregação Cristã não faz evangelizações nem apelos à conversão. Pelo mesmo motivo, no Batismo não são formuladas perguntas ao batizando.

Mesmo tendo uma boa percentagem de membros de classe média, a maioria dos membros da Congregação Cristã são de classe trabalhadora e pobre, com a expectativa de ascensão social como prêmio da obediência, que é um elemento importante da tradição calvinista. Devem-se ressaltar a solidariedade comunitária e duas diferenças fundamentais para com outras igrejas pentecostais:

1) os membros não estão submetidos a nenhuma disciplina (com exceção da exclusão da Igreja por causa de adultério) e 2) um culto muito ordenado.

A Congregação Cristã tem uma administração central, e a uniformidade doutrinária é mantida pela assembléia anual dos obreiros na grande sede no Bairro do Brás. A Congregação publica apenas o relatório anual e nada mais. Não publica nem recomenda literatura religiosa.


Bibliografia

BOBSIN, Oneide. Produção Religiosa e Significação Social do Pentecostalismo a partir de Sua
Prática e Representação. Tese de Mestrado apresentada na PUC de São Paulo, 1984.
— . Trabalhadores Protestantes Urbanos; Religião e Ética do Trabalho. Tese de Doutorado apresentada
na PUC de São Paulo, 1993.
— . Pentecostalismo: a Ordem do Caos. Fascículo nö 6 do Grupo de Trabalho sobre N ovos Movimentos
Religiosos, São Leopoldo, 1994.
BOUDEWIJNSE, Barbara et al. A lg o más que Opio; uma Lectura Antropologica dei Pentecostalismo
Latinoamericano y Caribeno. San José, DEI, 1991.
CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO (CEDI). Alternativas dos Desesperados;
com o Se Pode Ler o Pentecostalismo Autônomo. Rio de Janeiro, CEDI, 1991.
GONDIM, Ricardo. O Evangelho da Nova Era; uma Análise e Refutação da Chamada Teologia da
Prosperidade. São Paulo, Abba Press, 1993.
HOLLENWEGER, Walter. El Pentecostalismo; Historia e Doctrina. Buenos Aires, La Aurora, 1976.
M ENDONÇA, António Gouvêa & VELASQUES FILHO, Prócoro. Introdução ao Protestantismo no
Brasil. São Paulo, Loyola, 1990.
PAULY, Evaldo Luis. E os Crentes? São Leopoldo, Sinodal, 1985.
ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostais no Brasil; uma Interpretação Sócio-Religiosa. Petrópolis,
Vozes, 1985.
SOUZA, Beatriz Muniz. Experiência de Salvação. São Paulo, Duas Cidades, 1969.
Notas
1 Folha de S. Paulo, 10 maio 1993, p. 14.
2 Walter HOLLENWEGER, EI Pentecostalismo, pp. 9s.
3 Francisco C. ROLIM, Pentecostais no Brasil, pp. 70ss.
4 Antônio G. MENDONÇA, Introdução ao Protestantismo no Brasil, p. 48.
19
Estudos Teológicos, 35(l):7-20, 1995
5 ID., ibid., p. 52.
6 Francisco C. ROLIM, op. cit., pp. 52s.
7 Guerra Santa; Edir Macedo Investe na Luta contra o Diabo Lula, Isto E, 29 jun. 1994, p. 26.
8 Ibid., p. 27.
9 Ibid., p. 26.
10 Ibid., p. 27.
11 Oneide BOBSIN, Pentecostalismo: a Ordem do Caos, p. 8.
12 In: Carmelo ALVAREZ, ed., Pentecostalismo y Liberación, San José, DEI, 1992, p. 254.
Ingo Wulfhorst
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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Capitalismo Evangélico ou Gospel

A grosso modo, capitalismo é a influência ou supremacia do capital ou do dinheiro. Em outras palavras, é um sistema pelo qual alguém investe capital ou dinheiro numa atividade produtiva com o objetivo de gerar lucros.Mas, qual a relação que isso tem com o Evangelho?
Bem.
Com o Evangelho genuinamente bíblico, nenhuma; contudo, com o evangelho que muitos pregam em nosso dias, há uma intrínseca convivência.
Lamentavelmente, o Evangelho tornou-se para um grande número de pessoas, num meio totalmente eficaz de enriquecimento, numa fórmula perfeita de ascensão financeira.


Grandes empresas, principalmente do ramo fonográfico e editorial, que nunca nutriram nenhum vínculo que o povo de Deus, infiltraram-se no meio evangélico, buscando dessa forma ampliar seus lucros; atingir um “mercado” em fase de expansão, só no Brasil mais de 20 milhões!
Utilizam-se do Evangelho de forma, muitas vezes, inescrupulosa, bombardeando os crentes com um marketing estrategicamente elaborado, fazendo uso de uma linguagem cristã, dando uma roupagem aparentemente evangélica ou gospel aos seus produtos.
É comum ouvirmos falar de “Plano de Saúde Evangélico”, “Cartão de Crédito Evangélico”, “Shopping Evangélico” etc.
Em um periódico, uma agência de turismo anunciava uma excursão à “Disney Gospel”.
Até Sindicato de Pastores já foi cogitado.
O capitalismo, sob uma camuflagem cristã, penetrou no seio “das igrejas”, conduzindo muitos crentes ao consumismo exacerbado e ao materialismo desenfreado.O desejo pela prosperidade financeira suplanta, em algumas denominações, o anseio pela intimidade com Deus.
E o pior: a ambição pelo dinheiro ganhou respaldo bíblico. Fazem uso da Bíblia para justificar suas doutrinas de prosperidade.
O dízimo, que deveria ser dado com o intuito de manter a obra de Deus, tornou-se numa espécie de “investimento” ou numa “fórmula mágica” para se obter dinheiro de Deus: “Se você der tudo, receberá em dobro”, dizem alguns; e outros: “O diabo segura a carteira do crente para ele não dar oferta”.
A famigerada Teologia da Prosperidade, que é motivo de controvérsia entre as diversas denominações evangélicas, ganhou terreno e já é naturalmente aceita por inúmeras “igrejas”.
Em muitos casos é utilizada de forma apelativa, como um chamamento para os que enfrentam algum tipo de dificuldade financeira ou males físicos:
“Se Jesus estivesse entre nós, hoje, ele sairia num Boeing particular e compraria emissoras de rádio e televisão para pregar o mais rápido possível a sua Palavra”, foi o que afirmou um pastor ligado ao movimento.


Para muitos que compartilham essas idéias, Jesus foi um grande milionário e até usava roupas de grife.
Frases tais como “eu peço”, “eu clamo”, “eu imploro”, “eu suplico” foram substituídas por “eu exijo”, “eu decreto”, “eu determino”, “eu reivindico” etc..
São, no dizer de um escritor cristão, os “super-crentes”, àqueles que podem tudo, que estão sempre “amarrando satanás” e que, aparentemente, estão isentos dos dissabores da vida.
Todavia não são poucos os relatos de desapontamentos, quando percebem que a vida não é nenhum mar rosas e que, tais quais qualquer outra pessoa, estão sujeitas às mesmas procelas; quando sentem na própria pele, o “espinho na carne”.A prosperidade financeira transformou-se numa espécie de “femômetro” (ou “fidemômetro”), capaz de medir o grau da fé de alguém: se prosperou, a fé é grande; se fracassou, é pequena.
Provavelmente para estes, os crentes da Somália, da Etiópia, de Filipinas, de Serra Leoa, do Afeganistão etc. são todos fracassados, visto que vivem na miséria.
Ao contrário, os suecos, os japoneses, os americanos (principalmente estes, que inventaram tal doutrina) são poderosos na fé, uma vez que vivem numa grande bonança financeira.
É muito cômodo a quem tem dinheiro e saúde proclamar, como um arauto, que a escassez de dinheiro e a enfermidade significam ausência de fé!
Para esses pregadores, a fé só é fé se vier acompanhada de bênçãos materiais. Eles dizem – categoricamente – que se as nossas orações não estão sendo respondidas é porque não temos fé, e se a temos, ela é deve ser fraca.
Não é à toa que muitas pessoas vivem atormentadas por culpas. Sentindo-se fracassadas espiritualmente, perguntam:
Será que a minha fé é fraca?
Será que estou em pecado?
Esses “superpregadores” esquecem-se que, não obstante servirmos a um Deus Todo-Poderoso, maravilhosamente Poderoso, infinitamente Poderoso, ainda assim somos humanos, vivemos num mundo onde alegria e tristeza, pobreza e riqueza coexistem relativamente para cada pessoa.Se a chuva vem para os justos e injustos, conclui-se que as dificuldades não são diferentes.
Pessoas ímpias que não somente têm dinheiro, como também esbanjam saúde; também conheço pessoas cristãs, sinceramente cristãs, fiéis a Deus, que além de não terem saúde, têm escassez de dinheiro, vivem de aluguel, ganham um ínfimo salário.
Também conheço o oposto: pessoas ímpias que não tem nada, vivem na miséria, e pessoas cristãs que tem saúde e dinheiro.
A DIFERENÇA NÃO ESTÁ EM NOSSOS BOLSOS, EM NOSSOS CORPOS FÍSICOS: ESTÁ DENTRO DE NOSSOS CORAÇÕES.
Se Deus é o estandarte, então as circunstâncias, não importam quais, não impedem que sejamos verdadeiros filhos seus, e isso mesmo diante da pior tempestade.
O que nos conforta é sabermos que em nenhum instante estaremos sozinhos. O apóstolo Paulo, diz a Bíblia, tinha um misterioso espinho na carne, e mesmo clamando a Deus não foi respondido.
Vale a pena perguntar: será que ele também não tinha fé?
Se formos fazer uma análise dos chamados “Heróis da Bíblia” ou dos “Heróis da Fé”, perceberemos que a vida para eles não foi tão regalada como afirmam hoje os pregadores dessa teologia.
Na antiga dispensação, é verdade, os homens de Deus, como Abraão, Jó, Salomão, entre outros, tiveram grandes riquezas; todavia, Moisés, Jeremias, Isaías e outros profetas não as tiveram.
Então pergunto:
Será que os primeiros eram diante de Deus melhores que os segundos?
Se formos analisar a vida dos homens de Deus, principalmente na Nova Aliança, após o advento de Jesus, concluiremos, começando por Jesus, que a vida para eles não foi tão abastarda assim.A Bíblia afirma que Jesus não tinha sequer onde reclinar sua cabeça.
O diabo, quando o tentou, ofereceu-lhe as riquezas do mundo, os tesouros do reino da terra, mas Jesus o repreendeu.
Foi Jesus quem disse que o nosso tesouro deve estar nos céus, porque lá a ferrugem não o corrói. Por que será que em vez de ter nascido num esplendoroso palácio, ele nasceu em uma manjedoura (Tabuleiro em que se põe comida para os animais nas estrebarias)?
Os discípulos de Cristo também não eram ricos.
O único que se deixou levar pela ambição, Judas, teve um fim deveras trágico.
Quando algumas pessoas ricas chegavam para Jesus, como é o caso de Zaqueu e do jovem rico, foram motivados por ele a dividirem seus bens com o próximo.
A Igreja primitiva tinha esse hábito.
Diz a Bíblia que os irmãos prósperos dividiam com os menos favorecidos socialmente os seus bens.
O apóstolo Paulo não teve, como alguns supõem, uma vida maravilhosa. Muito pelo contrário, sofreu pelo nome de Jesus, não somente açoites, mas prisões, e mesmo a morte.
Em uma de suas epístolas, diz ter feito tendas para se manter, não querendo causar peso aos outros. Que diremos de João que, mesmo estando preso numa ilha, permaneceu firme na fé, sem jamais questionar os desígnios de Deus?
Não estou fazendo apologia do fracasso, da doença, da pobreza. Não, não é isso!
Muito pelo contrário, não há nada de errado em desejar ter uma vida bem sucedida; não vejo nenhum problema em querer uma vida com saúde.
Tudo isso é bom e importante, contudo, se porventura nos faltarem essas coisas, nunca devemos achar que por isso não temos fé.
A fé não é uma “fórmula mágica” que faz surgir do nada aquilo que necessitamos. Não, não, não é isso.Oferecer algo a Deus é fé: Abel ofereceu a Deus o mais excelente sacrifício, pelo que, diz a Bíblia, obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus (Hebreus 11.4).
Agradar a Deus é fé: Enoque foi transladado para não ver a morte, pois agradava a Deus (Hebreus 11:5).
Obedecer a Deus é fé: Noé seguiu os conselhos de Deus, construiu uma arca sob à zombaria de seus conterrâneos, e desta forma deu continuidade à espécie humana (Hebreus 11.7).
A fé fez com que Moisés abandonasse o conforto do Palácio de Faraó, para sofrer por seu povo. Muitos, por sua fé, foram apedrejados, provados, perseguidos, humilhados, açoitados, serrados pelo meio, mortos ao fio da espada.
Outros, pela fé, tiveram de andar peregrinos, vestidos de peles de ovelhas, necessitados, aflitos, maltratados.
Como diz a Bíblia, homens dos quais o mundo não era digno. Viviam pela fé, errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. Mesmo não tendo a concretização da promessa, eles não desistiram, perseveraram na fé. E a fé para eles foi sofrer pelo nome de Cristo.
Muitos, movidos pela fé, foram jogados em arenas para serem devorados por leões. E a fé venceu.
E hoje o que é a fé para muitos?
É viver regaladamente em suas lindas mansões, é ter o carro do ano, de preferência importado. É possuir saúde, e muitas vezes, fama. Pregar é mais cômodo pela televisão e no rádio.
Para que ir à Índia, à Etiópia, à Somália, ao sofrido Iraque, aos submundos das favelas, se é possível viver “rompendo em fé” aqui em meu conforto?
O desejo por riquezas tem conduzido muitos crentes sinceros ao afastamento do verdadeiro Evangelho, da pureza e santidade da Palavra de Deus.Com freqüência surgem novos movimentos que, de início, causam escândalos, porém logo são assimilados, ganham um rótulo evangélico ou gospel e, por ausência de questionamentos, passam a servir de modelo até mesmo para os mais conservadores.

Fonte: Blog A Fé Explicada