quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Casa onde nasceu a Umbanda começa a ser demolida


Enviado por Jorge Mattoso (Assessoria e Produção - CEUB)

Ontém, às 17 h, a Congregação Espírita entregou ao Advogado Mario Gomes documentos para que ele entrasse em juízo com uma liminar sustando a demolição. Uma medida no ínterim da decisão do IPHAN ( protocolamos um requerimento no IPHAN em caráter emergencial no dia 03/10) e da Prefeitura de São Gonçalo, mas infelizmente a Casa da Umbanda foi demolida, antes da entrega do documento, pela inércia da Prefeita, conforme reportagem do Extra de 05/10, acima.

Leia AQUI a matéria na íntegra escrita no site do jornal O Extra


Transcrevemos abaixo a matéria da jornalista Rosiane Rodrigues pertinente ao caso.
"Demolição da memória religiosa - à caminho da teocracia A demolição do prédio (que já deveria ter entrado para história como cenário do nascimento da única religião absolutamente brasileira) é apenas um sintoma do descaso com que determinadas religiões são tratadas pelo poder público. Trata-se da casa que abrigou o médium Zélio de Moraes, que ao incorporar o Caboclo das Sete Encruzilhadas, deu início às primeiras doutrinas umbandistas e que, segundo informações do Jornal Extra, virá abaixo para dar lugar a um galpão com fins comerciais. A construção centenária, localizada no bairro de Neves, no município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, poderia livrar-se de tal fim se a prefeita da cidade o declarasse patrimônio cultural. Simples assim. Como num passe de mágica, todo impasse estaria resolvido. São Gonçalo tem a segunda maior população do Rio de Janeiro e um dos maiores índices de criminalidade do Estado. Nas últimas semanas, a cidade apareceu em todos os noticiários pelo assassinato de uma juíza que tentava combater a corrupção e o extermínio de jovens, em sua maioria negros, no município. É também uma cidade marcada por denúncias de intolerância religiosa. Em 2009, o promotor Pedro Rubim, da Procuradoria da Educação do MP Estadual, em um relatório sobre a inconstitucionalidade do ensino religioso confessional, acusou formalmente a administração de duas escolas da cidade de proselitismo e também por discriminar alunos praticantes de religiões afrobrasileiras. O que mais chama atenção nessa história é a ironia. A cidade que há pouco mais de um século via nascer uma das maiores expressões da religiosidade afrobrasileira, misto do sincretismo entre os santos católicos e os orixás africanos, é hoje administrada por um governo com pretensão teocrática cristã. A prefeita, Aparecida Panisset, não esconde suas convicções religiosas. É declarada como evangélica, eleita com os votos da Igreja Universal do Reino de Deus e outras denominações neopentecostais. Digo "declarada" porque ser evangélico é completamente diferente de ser neopentecostal, em vários aspectos. Evangélicos tradicionais respeitam outras expressões religiosas e valorizam a diversidade. De qualquer forma, sabemos que expressar confissão religiosa é, em si, um direito constitucional. E nisso, a prefeita deve ser defendida. O problema é que os religiosos de matriz africana - e também os católicos - desconfiam que a miopia histórico-cultural da chefe do Executivo Municipal - em deixar que um casarão centenário, palco de um dos momentos mais significativos do nascimento da Umbanda, seja demolido - esteja intimamente ligada a sua religiosidade. Como sabemos, a base da doutrina neopentecostal é a demonização e discriminação dos cultos africanos. Católicos também não são poupados pelos neopentecostais, pois são acusados de idólatras por terem imagens de santos nas igrejas.

Alguns estudiosos dizem que a lógica é simples. Há quem diga que a prefeita está utilizando os mesmos métodos dos donos de escravos que, ao aprisionar milhares de pessoas nos porões dos navios e das senzalas, tentavam extirpar o que há de mais precioso no ser humano, que é a sua memória. Para eles, fazer com que as pretensas minorias esqueçam o passado é uma das mais cômodas formas de prisão. Encontrei textos que afirmam que a desvalorização cultural e religiosa de judeus e ciganos também foi uma das muitas estratégias utilizadas pelo III Reich, na Alemanha do século passado. Outros, menos afeitos a análises acadêmicas, insistem que o problema da prefeita é, unicamente, uma deformação política. Não creio que a prefeita do segundo maior município do Estado tenha pretensões escravocratas ou entenda de nazifascismo. Mas, se não repensar suas atitudes pode acabar entrando pela porta dos fundos da história sócio-cultural-religiosa do Rio de Janeiro. Ou, o que mais deve importar para quem precisa de votos de quatro em quatro anos, acabar saindo pela vala comum desse imenso esgoto, no qual transformou-se a política eleitoral." Rosiane Rodrigues é jornalista, especialista em História do Holocausto e pós-graduanda em Relações Étnicorraciais.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Memória prestes a virar pó: casa dará lugar à loja e depósito

Casa onde foi fundada a umbanda, em São Gonçalo, será demolida esta semana

 
Foto: Roberto Moreyra / Extra

Thamyres Dias
A estrutura metálica já está pronta para receber o telhado do novo galpão que vai ocupar o número 30 da Rua Floriano Peixoto, em Neves, São Gonçalo. Dentro do terreno, uma casinha centenária aguarda a demolição marcada, segundo o proprietário, ainda para esta semana. Poderia ser uma simples obra, não fosse um detalhe: a casa rosa, com a pintura já castigada pelos anos, é a última testemunha do nascimento da umbanda.
Foi no imóvel — que ocupava o centro de uma chácara, no início do século 20 —, que Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, dirigiu a primeira sessão da religião. Era 16 de novembro de 1908. A umbanda é a única manifestação religiosa 100% brasileira.
— A demolição nos deixa muito decepcionados, pois perdemos uma referência da chegada da mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas — diz Pedro Miranda, presidente da União Espiritista de Umbanda do Brasil, em referência à entidade que orientou Zélio a fundar a religião.

Espíritos tristes
A notícia também surpeendeu a mãe de santo Lucília Guimarães, do terreiro do Pai Maneco, em Curitiba, Paraná. Na década de 1990, ela veio ao Rio para pesquisar as origens da religião.
— Imagino que até os espíritos estejam tristes. É uma pena — lamenta ela.
Há mais de cem anos com a família de Zélio, o imóvel onde surgiu a umbanda foi vendido recentemente para o militar Wanderley da Silva, de 65 anos, que pretende transformar o local em um depósito e uma loja.
— Eu nunca soube que a casa tinha essa história. Mas agora já comprei, investi, não posso deixar de demolir — explica-se.
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), nunca houve um pedido de tombamento do imóvel. A antiga casa de Zélio também não é protegida pelo governo estadual ou pela Prefeitura de São Gonçalo.
De acordo com a última avaliação do IBGE, feita no Censo 2000, o Brasil tem quase 400 mil umbandistas. A religião está em todos os estados do país e também no Uruguai, Paraguai, Argentina, Portugal, Espanha e Japão.

‘Tudo acabou’
O terreiro de Zélio de Moraes — que recebeu o nome de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade — funcionou por pouco anos em São Gonçalo. Os primeiros umbandistas mudaram-se logo para o Rio de Janeiro.
Primeiro, o centro funcionou na Rua Borja Castro, na Praça Quinze. A rua foi extinta, na década de 1950, para a construção da Perimetral. Dali, foram para a Avenida Presidente Vargas. O imóvel também foi demolido, dessa vez para dar lugar ao Terminal Rodoviário da Central do Brasil.
Uma nova mudança e mais uma demolição. A casa 59 da Rua Dom Gerardo, em frente ao mosteiro de São Bento, virou um estacionamento.
— Tudo acabou, eram prédios muito antigos. Lamento que o último registro também vai desaparecer. Mas o mais importante é que os ensinamentos do meu avô se perpetuem — pediu a neta de Zélio, Lygia Cunha, que hoje preside a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. O terreiro agora funciona em uma sede própria, em Cachoeiras de Macacu, no interior do estado.

Capela de São Pedro
Antes de ser vendida, a casa onde nasceu a Umbanda abrigou uma capela católica. A última moradora do imóvel, uma descendente de Zélio que é muito católica, cedeu o espaço para os devotos. Quem administra a igrejinha — que também mudou de endereço — é dona Geraldina dos Santos, de 74 anos.
— Não tenho preconceito, não. Todos somos filhos de Deus. Se a religião nasceu lá, a casa devia ser preservada. É importante — disse.

Fonte: Globo.com
Edição:  02/10/2011